É uma tomografia do coração que pode trazer duas informações importantes: a quantidade de calcificação das artérias coronárias e a presença ou não de obstruções dessas artérias. Quando realizada sem contraste, mede a calcificação das artérias do coração. Com o uso de contraste, mostra se existe ou não placa de gordura nas artérias, além do grau de estreitamento delas. Chamamos de escore de cálcio coronário e de angiotomografia de artérias coronárias.
Atualizado em 4 de outubro de 2026 · Próxima revisão em outubro de 2028
O que o exame mede
Valores do exame#
A quantificação do cálcio é feita pelo escore de Agatston, nome do médico que criou o cálculo em 1990. O computador acha os pontos de cálcio dentro das artérias do coração, mede cada um e soma.
A diretriz brasileira de tomografia e ressonância descreve assim:
- Zero. Não foi encontrado cálcio.
- 1 a 100. Calcificação discreta.
- 101 a 400. Calcificação moderada.
- 401 a 1.000. Calcificação alta.
- Acima de 1.000. Calcificação muito alta.
Quanto maior o número, maior o risco de infarto nos anos seguintes. Nos estudos que deram origem a essas faixas, quem tem entre 1 e 100 tem cerca de duas vezes o risco de quem tem zero. Entre 101 e 400, cerca de quatro vezes. Acima de 1.000, cerca de dez vezes.
Essa escala descreve o quanto de cálcio existe. Não é a mesma escala que define o tratamento, e eu volto nisso mais abaixo.
Ter cálcio é ter aterosclerose#
Encontrar cálcio na coronária significa que existe aterosclerose, o acúmulo de gordura na parede da artéria.
Não significa que a artéria esteja obstruída. O escore não mede a passagem do sangue. Dá para ter escore alto com as artérias sem obstruções importantes, do mesmo modo que é possível não ter cálcio, com escore zero, e apresentar estreitamento importante.
A calcificação aparece com o tempo, conforme a placa amadurece. Placa jovem costuma não ter cálcio nenhum.
É o que a figura do começo mostra: nos cinco quadros a passagem do sangue é a mesma. O que cresce é o cálcio na parede.
Num estudo brasileiro com 367 pessoas de escore zero que fizeram angiotomografia, 9,3% tinham placa. Quase metade dessas com estreitamento acima de 50%. Eram pessoas que tinham indicação do exame. Em quem não tem sintoma, o número é menor.
O escore zero vale muito em quem não tem sintoma. Vale menos em quem tem. Se você sente dor no peito ou falta de ar aos esforços, o ideal é ser avaliado por outro método, diferente do escore de cálcio.
Entender o seu resultado
Comparação com a sua idade e o seu sexo#
A calcificação coronária aumenta com a idade. Um escore de 40 aos 70 anos é pouco. O mesmo 40 aos 45 anos é muito. No segundo caso o valor absoluto continua baixo, abaixo de 100, mas a pessoa está acima do esperado para quem tem a mesma idade e o mesmo sexo.
Por isso o laudo traz um segundo número: o percentil.
O percentil diz onde o seu resultado cai numa fila de pessoas da mesma idade e do mesmo sexo. Percentil 75 quer dizer que, de cada 100 pessoas parecidas com você, 75 têm escore menor que o seu. Percentil 99, que 99 têm.
O percentil não é nota. Não é porcentagem de artéria entupida. Não é a sua chance de infartar. É posição na fila.
A fila vem de estudos de população. O mais usado é o MESA, feito nos Estados Unidos com quase 7 mil pessoas sem doença do coração conhecida. Não existe tabela brasileira equivalente, e é essa referência que os programas de laudo usam aqui.
Duas situações em que o percentil muda a leitura:
- Escore baixo com percentil alto. Acontece em pessoa jovem. Escore 40 aos 45 anos costuma ficar acima do percentil 75. O valor absoluto não reclassifica o risco, o percentil reclassifica.
- Escore alto com percentil no meio da fila. Acontece depois dos 70 anos, quando ter cálcio é comum. Aí o percentil muda pouco, e o que pesa é o valor absoluto.
Tem uma consequência que confunde. Se você repetisse o exame daqui a dez anos e o escore fosse o mesmo, o percentil seria menor. Não porque você melhorou. Porque os seus pares envelheceram junto.
Na diretriz brasileira o percentil entra de um jeito só: acima do percentil 75 reclassifica para risco alto, mesmo com o escore abaixo de 100.
O contrário não vale. Abaixo de 75 não quer dizer que é normal, isoladamente. A comparação é com pessoas da mesma idade, e essas pessoas também têm aterosclerose: estar no meio da fila é estar no meio de uma fila que já tem doença. E o valor absoluto decide sozinho. Um escore de 400 com percentil 60 continua sendo risco alto.
Um laudo, linha por linha#
O laudo traz o escore de cada artéria e a soma. As siglas são TCE, tronco da coronária esquerda; DA, descendente anterior; Cx, circunflexa; CD, coronária direita.
Pode trazer também uma classificação chamada CAC-DRS. Ela tem duas partes. A letra A com um número diz a faixa do total. A letra N com um número diz em quantas artérias apareceu cálcio. A3/N3 é total acima de 300, com cálcio em três artérias.
O número de artérias não entra nos limiares de tratamento. Ele descreve o quanto a aterosclerose está espalhada.
A tabela de graus do CAC-DRS não é a mesma que citei no começo. A de lá é da diretriz brasileira de imagem e vai até acima de 1.000. A do CAC-DRS para em 300. As duas descrevem o mesmo cálcio com nomes diferentes. O que muda o tratamento é o total e o percentil.
Entender o resultado#
A Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025 usa o escore para reclassificar o risco cardiovascular:
- Acima de 100 ou percentil acima de 75 para a sua idade e o seu sexo: risco alto.
- Acima de 300: risco muito alto.
- Com diabetes, o limiar é menor. Escore entre 10 e 300 indica risco alto.
- Com hipercolesterolemia familiar, uma forma herdada de colesterol muito alto, acima de 100 já reclassifica para muito alto.
Mudar de faixa muda a meta de LDL, o colesterol que se deposita na parede da artéria. É o que explico no texto de risco cardiovascular: a pessoa sai de uma consulta com uma meta e, depois de um exame, passa a ter outra.
As duas escalas usam números parecidos para coisas diferentes. Uma descreve quanto de cálcio existe. A outra decide o que fazer. Um escore de 150 é calcificação moderada no laudo e risco alto na consulta. Não é contradição.
O escore pode subir com o tratamento certo#
A estatina e a atividade física deixam a placa mais estável. Placa estável é placa mais calcificada. O número pode aumentar em quem está fazendo tudo certo. Subir não é piorar.
Há ainda dois fatos técnicos. A variação entre dois exames do mesmo aparelho é de cerca de 15%. A aterosclerose progride de 15 a 20% ao ano por conta própria. Repetir o exame para ver se o remédio funciona pode gerar dúvida ao surgir um número maior, que não será uma informação útil.
Escore acima de zero que já reclassificou o seu risco cardiovascular, a depender do caso, não deveria ser repetido. O que precisa ser monitorado são as metas do tratamento: colesterol, pressão, peso, diabetes, parar de fumar.
Escore zero pode ser repetido depois de alguns anos, em torno de cinco, avaliando caso a caso.
Como o exame é feito
Como o escore de cálcio é feito#
Tomografia computadorizada.
- Sem contraste e sem agulha. Não precisa de acesso venoso nem de preparo para o exame.
- Sem jejum.
- Cerca de dez minutos no aparelho. A captação das imagens em si leva segundos.
- Deitado, com eletrodos no peito para sincronizar as imagens com o batimento do coração. Você prende a respiração por alguns segundos.
- Radiação baixa, em torno de 0,8 a 1 milisievert. É perto do que qualquer pessoa recebe do ambiente em cinco meses. A radiação natural do ambiente é de cerca de 2,4 milisieverts por ano.
Existe uma situação em que o cálcio aparece sem ninguém ter pedido. Tomografia de tórax feita por outro motivo, para investigar o pulmão, por exemplo, mostra as coronárias no mesmo corte. Se houver cálcio ali, ele é visível. Nem todo laudo comenta, porque não era a pergunta do exame. Se você tem uma tomografia de tórax guardada, vale levar na consulta.
Quando é necessário utilizar contraste#
Quando é importante avaliar se existe obstrução nas artérias ou não. O exame com contraste é a angiotomografia das artérias coronárias. É uma tomografia. A diferença é que o contraste à base de iodo é injetado na veia, com o objetivo de preencher o interior das artérias.
Com a artéria desenhada por onde o sangue passa, o exame consegue avaliar onde está a placa, se ela é calcificada ou não, e o quanto ela estreita a passagem de fluxo.
A indicação principal é sintoma estável com suspeita de doença nas coronárias, em quem ainda não tem diagnóstico. Lembro que não é exame de rastreamento. Tem muito valor naquelas pessoas que apresentam algum sintoma.
O preparo da angiotomografia#
Os detalhes mudam de serviço para serviço. Peça a orientação no lugar onde vai fazer, na hora de marcar, e siga o que foi informado. O que vale em qualquer lugar:
- Função dos rins. O contraste é eliminado pelos rins. Costuma-se pedir exame de sangue antes, com a creatinina, principalmente em quem tem diabetes, pressão alta de longa data ou doença renal.
- Alergia. Se já teve reação a contraste com iodo em qualquer exame, avise na hora de marcar e de novo no dia.
- Frequência cardíaca. A imagem fica melhor com o coração batendo devagar. A proposta é que os batimentos estejam próximos de 65 por minuto ou menos. Muitos serviços dão um medicamento para controlar os batimentos, suspenso depois do exame.
- Prender a respiração durante o exame evita artefatos nas imagens, que podem prejudicar a análise.
- Radiação. Maior que a do escore de cálcio. Em registros internacionais recentes a mediana ficou em torno de 2,7 milisieverts.
Uma limitação: muito cálcio atrapalha a avaliação da angiotomografia. O cálcio brilha na imagem e esconde o que está atrás. Nas pessoas com escore muito alto, a leitura do grau de obstrução fica limitada, e nesses casos vale buscar outros métodos.
Para quem serve, e para quem não
Para quem pedimos o escore de cálcio, e para quem não#
O escore de cálcio foi feito para uma situação. Pessoa sem sintoma de dor no tórax ou equivalente, em avaliação de prevenção, com risco cardiovascular calculado na consulta em valores limítrofe ou intermediário.
- Risco muito baixo: em geral não vale. A chance de o exame mudar a conduta é pequena.
- Risco já claramente alto, ou colesterol muito elevado: também não costuma valer. Já sabemos os riscos e as metas de tratamento. A exceção é quando o resultado ajuda a decidir o quanto intensificar as metas.
- Com sintoma, ou no pronto-socorro: não é o exame. Dor no peito pede outra investigação, e escrevo sobre isso no texto de dor no peito.
Cada exame responde uma pergunta#
- Escore de cálcio. Tenho aterosclerose? Quanto? Fala de risco, não de obstrução.
- Angiotomografia. Onde está a placa e o quanto ela estreita? Fala de anatomia.
- Cintilografia, ecocardiograma de estresse, teste na esteira. Falta sangue ao músculo quando o coração é exigido? Escrevo sobre o primeiro no texto de cintilografia do coração.
- Cateterismo. Tem a mesma ideia da angiotomografia, com mais precisão, e com a possibilidade de tratar na mesma hora, com a colocação de stent, por exemplo. É um exame invasivo, com um pouco mais de risco.
Depois do resultado
O que muda depois do resultado#
Escore de cálcio zero, sem sintoma. O risco de curto prazo é baixo. Pressão, colesterol, cigarro, peso e atividade física continuam contando.
Escore de 1 a 99. Existe aterosclerose, em grau discreto. Entra a conversa sobre tratar com remédio ou não, pesando os seus outros fatores.
Escore acima de 100, ou percentil acima de 75. Você passa a ser tratado como risco alto, com meta de colesterol mais baixa, por exemplo. Situação em que a maioria começa ou intensifica o tratamento.
Escore acima de 300. Risco muito alto. Meta mais baixa ainda.
Obstrução importante na angiotomografia. A conversa passa a ser sobre tratamento clínico bem feito e, em parte dos casos, sobre cateterismo. Nem toda obstrução precisa de stent.
O que eu costumo dizer sobre isso
Eu explico que a avaliação se monta por camadas. A primeira parte da conversa é sobre a sua história, o que você sente, o que já teve, o que existe na sua família. A segunda é o exame físico. Depois vêm os exames que complementam, como o eletrocardiograma, o ecocardiograma e o Doppler das carótidas. A avaliação do cálcio nas artérias do coração ajuda muito nessa etapa.
Ter cálcio é igual a ter aterosclerose. Não diz o grau de obstrução da artéria. Por outro lado, não ter cálcio, com escore zero, não exclui a presença de placa de gordura no interior da artéria. É possível ter placa que não calcifica.
Para falar de obstrução é preciso utilizar contraste.
Por fim, olho o número de duas maneiras. O valor absoluto, que define a faixa de risco. E a comparação com o esperado para alguém da sua idade e do seu sexo, que mostra se aquele número é pouco ou muito para quem você é.
Referências
- Agatston AS, Janowitz WR, Hildner FJ et al. Quantification of coronary artery calcium using ultrafast computed tomography. J Am Coll Cardiol 1990;15(4):827-832.
- Gabriel FS, Gonçalves LFG, Melo EV et al. Placa Aterosclerótica à Angiotomografia de Coronárias em Pacientes com Escore de Cálcio Zero. Arq Bras Cardiol 2018;110(5):420-427.
- Hecht HS, Blaha MJ, Kazerooni EA et al. CAC-DRS: Coronary Artery Calcium Data and Reporting System. An expert consensus document of the Society of Cardiovascular Computed Tomography (SCCT). J Cardiovasc Comput Tomogr 2018;12(3):185-191.
- Magalhães TA, Carneiro ACC, Moreira VM et al. Diretriz de Tomografia Computadorizada e Ressonância Magnética Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia e do Colégio Brasileiro de Radiologia, 2024. Arq Bras Cardiol 2024;121(9):e20240608.
- McClelland RL, Chung H, Detrano R, Post W, Kronmal RA. Distribution of coronary artery calcium by race, gender, and age: results from the Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis (MESA). Circulation 2006;113(1):30-37.
- SCOT-HEART Investigators. Coronary CT Angiography and 5-Year Risk of Myocardial Infarction. N Engl J Med 2018;379:924-933.
- Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, 2025.
- Stocker TJ, Deseive S, Leipsic J et al. Reduction in radiation exposure in cardiovascular computed tomography imaging (PROTECTION VI). Eur Heart J 2018;39:3715-3723.
As informações desta página não substituem a consulta médica. Cada caso precisa de avaliação individual. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192.
Matheus Marques Franca
Médico · CRM-DF 17096
Especialista em Cardiologia, RQE 13949
Especialista em Clínica Médica, RQE 13950