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Exames que complementam

Tomografia das coronárias

Uma mesma máquina que responde duas perguntas diferentes

É uma tomografia do coração que pode trazer duas informações importantes: a quantidade de calcificação das artérias coronárias e a presença ou não de obstruções dessas artérias. Quando realizada sem contraste, mede a calcificação das artérias do coração. Com o uso de contraste, mostra se existe ou não placa de gordura nas artérias, além do grau de estreitamento delas. Chamamos de escore de cálcio coronário e de angiotomografia de artérias coronárias.

Atualizado em 4 de outubro de 2026 · Próxima revisão em outubro de 2028

Quer ver só o que interessa?

O que o exame mede

Valores do exame#

A quantificação do cálcio é feita pelo escore de Agatston, nome do médico que criou o cálculo em 1990. O computador acha os pontos de cálcio dentro das artérias do coração, mede cada um e soma.

A diretriz brasileira de tomografia e ressonância descreve assim:

  • Zero. Não foi encontrado cálcio.
  • 1 a 100. Calcificação discreta.
  • 101 a 400. Calcificação moderada.
  • 401 a 1.000. Calcificação alta.
  • Acima de 1.000. Calcificação muito alta.

Quanto maior o número, maior o risco de infarto nos anos seguintes. Nos estudos que deram origem a essas faixas, quem tem entre 1 e 100 tem cerca de duas vezes o risco de quem tem zero. Entre 101 e 400, cerca de quatro vezes. Acima de 1.000, cerca de dez vezes.

Essa escala descreve o quanto de cálcio existe. Não é a mesma escala que define o tratamento, e eu volto nisso mais abaixo.

As faixas do escore de cálcioCinco quadros lado a lado mostram a mesma artéria do coração em corte transversal, com quantidades crescentes de cálcio na parede. A luz do vaso, por onde o sangue passa, é igual nos cinco: o que muda é só o cálcio. No primeiro quadro a parede está limpa e o escore é zero. No segundo aparece um depósito pequeno, faixa de 1 a 100, calcificação discreta. No terceiro, depósitos em três pontos da parede, faixa de 101 a 400, calcificação moderada. No quarto, a calcificação toma perto de metade da parede, faixa de 401 a 1.000, calcificação alta. No quinto, quase toda a parede está calcificada, acima de 1.000, calcificação muito alta. Abaixo de cada quadro, uma barra colorida indica a faixa, na mesma escala de cor usada no resto do site, do verde ao vermelho.As faixas do escore de cálcioA mesma artéria em corte, com cada vez mais cálcio na paredeESCORE 00Sem calcificaçãoESCORE 291 a 100CalcificaçãodiscretaESCORE 250101 a 400CalcificaçãomoderadaESCORE 700401 a 1.000CalcificaçãoaltaESCORE 1.200Acima de 1.000Calcificaçãomuito altaFaixas: Diretriz de Tomografia Computadorizada e Ressonância Magnética Cardiovascular da SBC e do CBR, 2024.Ilustração esquemática. A quantidade de cálcio desenhada mostra a ideia e não corresponde ao cálculo do escore.Matheus Marques Franca · Médico · CRM-DF 17096 · Cardiologia RQE 13949 · Clínica Médica RQE 13950
As cinco faixas da diretriz brasileira. A luz do vaso é igual nos cinco quadros: o que cresce é o cálcio na parede.

Ter cálcio é ter aterosclerose#

Encontrar cálcio na coronária significa que existe aterosclerose, o acúmulo de gordura na parede da artéria.

Não significa que a artéria esteja obstruída. O escore não mede a passagem do sangue. Dá para ter escore alto com as artérias sem obstruções importantes, do mesmo modo que é possível não ter cálcio, com escore zero, e apresentar estreitamento importante.

A calcificação aparece com o tempo, conforme a placa amadurece. Placa jovem costuma não ter cálcio nenhum.

É o que a figura do começo mostra: nos cinco quadros a passagem do sangue é a mesma. O que cresce é o cálcio na parede.

Num estudo brasileiro com 367 pessoas de escore zero que fizeram angiotomografia, 9,3% tinham placa. Quase metade dessas com estreitamento acima de 50%. Eram pessoas que tinham indicação do exame. Em quem não tem sintoma, o número é menor.

O escore zero vale muito em quem não tem sintoma. Vale menos em quem tem. Se você sente dor no peito ou falta de ar aos esforços, o ideal é ser avaliado por outro método, diferente do escore de cálcio.

Escore de cálcio zero com estreitamento importanteDuas imagens de exame lado a lado, da mesma artéria do coração, numa pessoa cujo escore de cálcio deu zero. À esquerda, a angiotomografia das coronárias mostra a artéria descendente anterior esticada numa faixa vertical, com o contraste em branco; num ponto do trajeto a faixa branca afina, que é o estreitamento causado por uma placa de gordura sem cálcio. À direita, o cateterismo mostra a mesma artéria por dentro, confirmando o estreitamento. A mensagem é que escore de cálcio zero não significa artéria limpa, porque existe placa que não calcifica e que o exame sem contraste não enxerga.Escore de cálcio zero com obstrução grave na artériaSuboclusão numa pessoa com escore de cálcio zeroONDE FICA A ARTÉRIAA descendente anterior, marcada emamarelo, desce pela frente docoração.O QUE A TOMOGRAFIA MOSTROUA mesma artéria. O contraste deixa acoronária branca. No ponto marcado,ela afina muito.O CATETERISMO CONFIRMOUA artéria vista por dentro, noexame que confirmou oestreitamento.O escore de cálcio dessa pessoa era zero.A placa não tinha cálcio, e o exame sem contraste não a vê. Foi no exame com contrasteque deu para ver o estreitamento.Matheus Marques Franca · Médico · CRM-DF 17096 · Cardiologia RQE 13949 · Clínica Médica RQE 13950
Um exemplo de escore de cálcio zero com estreitamento importante na descendente anterior.
Entender o seu resultado

Comparação com a sua idade e o seu sexo#

A calcificação coronária aumenta com a idade. Um escore de 40 aos 70 anos é pouco. O mesmo 40 aos 45 anos é muito. No segundo caso o valor absoluto continua baixo, abaixo de 100, mas a pessoa está acima do esperado para quem tem a mesma idade e o mesmo sexo.

Por isso o laudo traz um segundo número: o percentil.

O percentil diz onde o seu resultado cai numa fila de pessoas da mesma idade e do mesmo sexo. Percentil 75 quer dizer que, de cada 100 pessoas parecidas com você, 75 têm escore menor que o seu. Percentil 99, que 99 têm.

O percentil não é nota. Não é porcentagem de artéria entupida. Não é a sua chance de infartar. É posição na fila.

A fila vem de estudos de população. O mais usado é o MESA, feito nos Estados Unidos com quase 7 mil pessoas sem doença do coração conhecida. Não existe tabela brasileira equivalente, e é essa referência que os programas de laudo usam aqui.

Duas situações em que o percentil muda a leitura:

  • Escore baixo com percentil alto. Acontece em pessoa jovem. Escore 40 aos 45 anos costuma ficar acima do percentil 75. O valor absoluto não reclassifica o risco, o percentil reclassifica.
  • Escore alto com percentil no meio da fila. Acontece depois dos 70 anos, quando ter cálcio é comum. Aí o percentil muda pouco, e o que pesa é o valor absoluto.

Tem uma consequência que confunde. Se você repetisse o exame daqui a dez anos e o escore fosse o mesmo, o percentil seria menor. Não porque você melhorou. Porque os seus pares envelheceram junto.

Na diretriz brasileira o percentil entra de um jeito só: acima do percentil 75 reclassifica para risco alto, mesmo com o escore abaixo de 100.

O contrário não vale. Abaixo de 75 não quer dizer que é normal, isoladamente. A comparação é com pessoas da mesma idade, e essas pessoas também têm aterosclerose: estar no meio da fila é estar no meio de uma fila que já tem doença. E o valor absoluto decide sozinho. Um escore de 400 com percentil 60 continua sendo risco alto.

Um laudo, linha por linha#

O laudo traz o escore de cada artéria e a soma. As siglas são TCE, tronco da coronária esquerda; DA, descendente anterior; Cx, circunflexa; CD, coronária direita.

Pode trazer também uma classificação chamada CAC-DRS. Ela tem duas partes. A letra A com um número diz a faixa do total. A letra N com um número diz em quantas artérias apareceu cálcio. A3/N3 é total acima de 300, com cálcio em três artérias.

O número de artérias não entra nos limiares de tratamento. Ele descreve o quanto a aterosclerose está espalhada.

A tabela de graus do CAC-DRS não é a mesma que citei no começo. A de lá é da diretriz brasileira de imagem e vai até acima de 1.000. A do CAC-DRS para em 300. As duas descrevem o mesmo cálcio com nomes diferentes. O que muda o tratamento é o total e o percentil.

Avaliando o laudo do escore de cálcio coronárioUm laudo de escore de cálcio inventado, de uma mulher de 58 anos, explicado linha a linha numa tabela de três colunas: o que vem no laudo, o valor e o que aquilo quer dizer. Tronco da coronária esquerda, escore zero. Descendente anterior, 210. Circunflexa, 6. Coronária direita, 602. Total, 818, que é o número que entra na decisão de tratamento. Percentil 99, ou seja, de cada cem mulheres de 58 anos, 99 teriam escore menor. Classificação CAC-DRS A3 barra N3, que quer dizer total acima de 300 e cálcio em três artérias. Embaixo, a tabela de graus que vem no fim do laudo: A0 para escore zero, A1 de 1 a 99, calcificação baixa, A2 de 100 a 299, moderada, e A3 acima de 300, importante, que é onde o exemplo cai.Avaliando o laudo do escore de cálcio coronárioNúmeros absolutos (escore de cálcio de Agatston) e percentil (baseado no estudo MESA)LAUDO DE EXEMPLO · MULHER DE 58 ANOS · TOMOGRAFIA SEM CONTRASTE, SINCRONIZADA COM O ELETROCARDIOGRAMADADOSVALORO QUE QUER DIZERPOR ARTÉRIATCETronco da coronária esquerda0Nenhum cálcio no tronco, de onde saem a descendenteanterior e a circunflexa.DADescendente anterior210Cálcio na artéria que desce pela frente do coração eirriga a maior parte do músculo.CxCircunflexa6Um traço de cálcio. Conta para o total e conta comoartéria acometida.CDCoronária direita602A artéria com mais cálcio nesse exemplo.RESULTADOTotalA soma das quatro818É esse número que entra no resultado.PercentilComparação com a idade e o sexo99De cada 100 mulheres de 58 anos, 99 teriam escoremenor que esse.CAC-DRSClassificação do exameA3/N3A3: total acima de 300. N3: cálcio em três artérias.Classificação A de Agatston / Escore total / Calcificação coronáriaA00Não identificávelA11 a 99BaixaA2100 a 299ModeradaA3acima de 300ImportanteO EXEMPLO CAI AQUIPercentil acima de 75 sobe a classificação de risco.Abaixo de 75 não quer dizer que é normal, isoladamente. A comparação é com pessoas da mesma idade,que também têm aterosclerose. E o valor absoluto decide sozinho: escore 400 com percentil 60continua sendo risco alto.Exemplo inventado para explicar o laudo. Não é o exame de nenhuma pessoa.Graus: CAC-DRS, Society of Cardiovascular Computed Tomography, 2018. Percentil: McClelland RL et al., Circulation2006;113(1):30-37 (estudo MESA).Matheus Marques Franca · Médico · CRM-DF 17096 · Cardiologia RQE 13949 · Clínica Médica RQE 13950
Um laudo de exemplo, com os números inventados, e o que cada linha quer dizer.

Entender o resultado#

A Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025 usa o escore para reclassificar o risco cardiovascular:

  • Acima de 100 ou percentil acima de 75 para a sua idade e o seu sexo: risco alto.
  • Acima de 300: risco muito alto.
  • Com diabetes, o limiar é menor. Escore entre 10 e 300 indica risco alto.
  • Com hipercolesterolemia familiar, uma forma herdada de colesterol muito alto, acima de 100 já reclassifica para muito alto.

Mudar de faixa muda a meta de LDL, o colesterol que se deposita na parede da artéria. É o que explico no texto de risco cardiovascular: a pessoa sai de uma consulta com uma meta e, depois de um exame, passa a ter outra.

As duas escalas usam números parecidos para coisas diferentes. Uma descreve quanto de cálcio existe. A outra decide o que fazer. Um escore de 150 é calcificação moderada no laudo e risco alto na consulta. Não é contradição.

O que o resultado mudaTabela com o que o escore de cálcio muda no tratamento. Primeira coluna, o resultado do exame; segunda, como o risco cardiovascular passa a ser classificado; terceira, o que costuma mudar na prática. Escore zero, sem sintoma: risco baixo no curto prazo, e a prevenção segue pelos fatores de sempre. Escore de 1 a 99: existe aterosclerose em grau discreto, e a decisão de tratar com remédio pesa os outros fatores. Escore de 100 ou mais, ou percentil acima de 75 para a idade e o sexo: risco alto, com meta de colesterol mais baixa. Escore acima de 300: risco muito alto, com meta mais baixa ainda. Em situações especiais o limiar muda: quem tem diabetes já é classificado como risco alto com escore entre 10 e 300, e quem tem hipercolesterolemia familiar passa a muito alto com escore acima de 100. Os limiares são da Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025.O que o resultado mudaO escore entra na conta do risco, e o risco define a metaO SEU RESULTADOCOMO O RISCO FICAO QUE COSTUMA MUDARZeroNão reclassificaRisco baixo no curto prazo. A prevençãosegue pela pressão, pelo colesterol, pelocigarro e pelo peso.1 a 99Não reclassificasozinhoExiste aterosclerose, em grau discreto. Adecisão de tratar com remédio pesa os seusoutros fatores.100 ou maisRisco altoMeta de colesterol mais baixa. É onde amaioria começa ou intensifica o tratamento.Acima de 300Risco muito altoMeta de colesterol mais baixa ainda.QUANDO O LIMIAR MUDAPercentil acima de 75Risco altoVale mesmo com valor absoluto abaixo de 100.É o caso de quem é jovem e já tem maiscálcio que os seus pares.Com diabetes, de 10 a300Risco altoO limiar é bem menor. Pouco cálcio já conta.Com colesterol familiar,acima de 100Risco muito altoHipercolesterolemia familiar é a formaherdada de colesterol muito alto.O número sozinho não decide.Ele entra na conta com a sua história, o exame físico e o resto dos exames. Quem indicae quem interpreta é o médico que acompanha o caso.Limiares: Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, 2025.As metas de colesterol de cada faixa estão no texto de risco cardiovascular.Matheus Marques Franca · Médico · CRM-DF 17096 · Cardiologia RQE 13949 · Clínica Médica RQE 13950
O que cada resultado muda na classificação de risco e no tratamento.

O escore pode subir com o tratamento certo#

A estatina e a atividade física deixam a placa mais estável. Placa estável é placa mais calcificada. O número pode aumentar em quem está fazendo tudo certo. Subir não é piorar.

Há ainda dois fatos técnicos. A variação entre dois exames do mesmo aparelho é de cerca de 15%. A aterosclerose progride de 15 a 20% ao ano por conta própria. Repetir o exame para ver se o remédio funciona pode gerar dúvida ao surgir um número maior, que não será uma informação útil.

Escore acima de zero que já reclassificou o seu risco cardiovascular, a depender do caso, não deveria ser repetido. O que precisa ser monitorado são as metas do tratamento: colesterol, pressão, peso, diabetes, parar de fumar.

Escore zero pode ser repetido depois de alguns anos, em torno de cinco, avaliando caso a caso.

Como o exame é feito

Como o escore de cálcio é feito#

Tomografia computadorizada.

  • Sem contraste e sem agulha. Não precisa de acesso venoso nem de preparo para o exame.
  • Sem jejum.
  • Cerca de dez minutos no aparelho. A captação das imagens em si leva segundos.
  • Deitado, com eletrodos no peito para sincronizar as imagens com o batimento do coração. Você prende a respiração por alguns segundos.
  • Radiação baixa, em torno de 0,8 a 1 milisievert. É perto do que qualquer pessoa recebe do ambiente em cinco meses. A radiação natural do ambiente é de cerca de 2,4 milisieverts por ano.
Escore de cálcio coronárioDuas tomografias de verdade, sem contraste, lado a lado. À esquerda, um exame de escore de cálcio: o corte mostra o coração e uma marca branca bem clara na artéria descendente anterior, marcada DA e apontada por uma seta. À direita, uma tomografia de tórax feita por outro motivo, no mesmo tipo de corte, com marcas brancas em três artérias do coração: a descendente anterior, a circunflexa e a coronária direita, marcadas DA, Cx e CD. A mensagem é que o cálcio aparece branco e bem visível na tomografia sem contraste, e que ele também pode ser notado numa tomografia de tórax pedida por outra razão.Escore de cálcio coronárioCálcio na parede da coronária aparece branco na tomografia sem contrasteEXAME DE ESCORE DE CÁLCIODAExame sincronizado com o batimento cardíaco. Amarca branca está na descendente anterior.TOMOGRAFIA DE TÓRAX FEITA POR OUTRO MOTIVOCDDACxO cálcio aparece em três artérias. Por isso vale olharas coronárias quando você faz uma tomografia de tórax.As siglas das imagensDADescendente anteriorCxCircunflexaCDCoronária direitaO cálcio é a parte branca na parede da artéria.O computador soma a área e a densidade dessas marcas em todas as artérias. O valor totalé o resultado do escore.Imagens: Abdelrahman K, Shiyovich A, Huck DM et al. Diagnostics 2024;14(2):125, figura 2.doi:10.3390/diagnostics14020125. Licença CC BY 4.0. Recortadas, com as siglas traduzidas.Matheus Marques Franca · Médico · CRM-DF 17096 · Cardiologia RQE 13949 · Clínica Médica RQE 13950
O cálcio na tomografia sem contraste: a marca branca, bem clara, na parede da artéria.

Existe uma situação em que o cálcio aparece sem ninguém ter pedido. Tomografia de tórax feita por outro motivo, para investigar o pulmão, por exemplo, mostra as coronárias no mesmo corte. Se houver cálcio ali, ele é visível. Nem todo laudo comenta, porque não era a pergunta do exame. Se você tem uma tomografia de tórax guardada, vale levar na consulta.

Quando é necessário utilizar contraste#

Quando é importante avaliar se existe obstrução nas artérias ou não. O exame com contraste é a angiotomografia das artérias coronárias. É uma tomografia. A diferença é que o contraste à base de iodo é injetado na veia, com o objetivo de preencher o interior das artérias.

Com a artéria desenhada por onde o sangue passa, o exame consegue avaliar onde está a placa, se ela é calcificada ou não, e o quanto ela estreita a passagem de fluxo.

O cálcio nas artérias do coraçãoOito imagens de tomografia das coronárias, em duas fileiras de quatro. Na fileira de cima, reconstruções tridimensionais do coração, cada uma com uma artéria destacada e nomeada com a sigla do laudo: descendente anterior, primeiro ramo marginal, segundo ramo marginal e coronária direita com a descendente posterior. Na fileira de baixo, o corte ao longo de cada uma dessas artérias, em que o interior do vaso aparece branco por causa do contraste e o cálcio aparece como manchas de branco mais forte na parede. A mensagem é que o cálcio se acumula em pontos diferentes de artérias diferentes, e que é sempre a parte mais clara da imagem, encostada na parede do vaso.O cálcio nas artérias do coraçãoQuatro territórios do mesmo exame: onde fica cada artéria e onde o cálcio apareceDADescendente anteriorMg1Primeiro ramo marginalMg2Segundo ramo marginalCD-DPCoronária direita edescendente posteriorReconstrução 3D das artériasCálcio visto pela tomografia sem contrasteO cálcio é o branco mais forte, sempre na parede da artéria.A reconstrução em três dimensões é feita com contraste e serve para localizar a artéria no coração.O escore de cálcio é medido no exame sem contraste, em que só o cálcio aparece claro.As siglas em amarelo são as do laudo, e estão explicadas no alto de cada coluna.Matheus Marques Franca · Médico · CRM-DF 17096 · Cardiologia RQE 13949 · Clínica Médica RQE 13950
O mesmo exame, artéria por artéria: onde cada uma fica e onde o cálcio aparece.

A indicação principal é sintoma estável com suspeita de doença nas coronárias, em quem ainda não tem diagnóstico. Lembro que não é exame de rastreamento. Tem muito valor naquelas pessoas que apresentam algum sintoma.

O preparo da angiotomografia#

Os detalhes mudam de serviço para serviço. Peça a orientação no lugar onde vai fazer, na hora de marcar, e siga o que foi informado. O que vale em qualquer lugar:

  • Função dos rins. O contraste é eliminado pelos rins. Costuma-se pedir exame de sangue antes, com a creatinina, principalmente em quem tem diabetes, pressão alta de longa data ou doença renal.
  • Alergia. Se já teve reação a contraste com iodo em qualquer exame, avise na hora de marcar e de novo no dia.
  • Frequência cardíaca. A imagem fica melhor com o coração batendo devagar. A proposta é que os batimentos estejam próximos de 65 por minuto ou menos. Muitos serviços dão um medicamento para controlar os batimentos, suspenso depois do exame.
  • Prender a respiração durante o exame evita artefatos nas imagens, que podem prejudicar a análise.
  • Radiação. Maior que a do escore de cálcio. Em registros internacionais recentes a mediana ficou em torno de 2,7 milisieverts.

Uma limitação: muito cálcio atrapalha a avaliação da angiotomografia. O cálcio brilha na imagem e esconde o que está atrás. Nas pessoas com escore muito alto, a leitura do grau de obstrução fica limitada, e nesses casos vale buscar outros métodos.

Para quem serve, e para quem não

Para quem pedimos o escore de cálcio, e para quem não#

O escore de cálcio foi feito para uma situação. Pessoa sem sintoma de dor no tórax ou equivalente, em avaliação de prevenção, com risco cardiovascular calculado na consulta em valores limítrofe ou intermediário.

  • Risco muito baixo: em geral não vale. A chance de o exame mudar a conduta é pequena.
  • Risco já claramente alto, ou colesterol muito elevado: também não costuma valer. Já sabemos os riscos e as metas de tratamento. A exceção é quando o resultado ajuda a decidir o quanto intensificar as metas.
  • Com sintoma, ou no pronto-socorro: não é o exame. Dor no peito pede outra investigação, e escrevo sobre isso no texto de dor no peito.

Cada exame responde uma pergunta#

  • Escore de cálcio. Tenho aterosclerose? Quanto? Fala de risco, não de obstrução.
  • Angiotomografia. Onde está a placa e o quanto ela estreita? Fala de anatomia.
  • Cintilografia, ecocardiograma de estresse, teste na esteira. Falta sangue ao músculo quando o coração é exigido? Escrevo sobre o primeiro no texto de cintilografia do coração.
  • Cateterismo. Tem a mesma ideia da angiotomografia, com mais precisão, e com a possibilidade de tratar na mesma hora, com a colocação de stent, por exemplo. É um exame invasivo, com um pouco mais de risco.
Depois do resultado

O que muda depois do resultado#

Escore de cálcio zero, sem sintoma. O risco de curto prazo é baixo. Pressão, colesterol, cigarro, peso e atividade física continuam contando.

Escore de 1 a 99. Existe aterosclerose, em grau discreto. Entra a conversa sobre tratar com remédio ou não, pesando os seus outros fatores.

Escore acima de 100, ou percentil acima de 75. Você passa a ser tratado como risco alto, com meta de colesterol mais baixa, por exemplo. Situação em que a maioria começa ou intensifica o tratamento.

Escore acima de 300. Risco muito alto. Meta mais baixa ainda.

Obstrução importante na angiotomografia. A conversa passa a ser sobre tratamento clínico bem feito e, em parte dos casos, sobre cateterismo. Nem toda obstrução precisa de stent.

O que eu costumo dizer sobre isso

Eu explico que a avaliação se monta por camadas. A primeira parte da conversa é sobre a sua história, o que você sente, o que já teve, o que existe na sua família. A segunda é o exame físico. Depois vêm os exames que complementam, como o eletrocardiograma, o ecocardiograma e o Doppler das carótidas. A avaliação do cálcio nas artérias do coração ajuda muito nessa etapa.

Ter cálcio é igual a ter aterosclerose. Não diz o grau de obstrução da artéria. Por outro lado, não ter cálcio, com escore zero, não exclui a presença de placa de gordura no interior da artéria. É possível ter placa que não calcifica.

Para falar de obstrução é preciso utilizar contraste.

Por fim, olho o número de duas maneiras. O valor absoluto, que define a faixa de risco. E a comparação com o esperado para alguém da sua idade e do seu sexo, que mostra se aquele número é pouco ou muito para quem você é.

Referências

  1. Agatston AS, Janowitz WR, Hildner FJ et al. Quantification of coronary artery calcium using ultrafast computed tomography. J Am Coll Cardiol 1990;15(4):827-832.
  2. Gabriel FS, Gonçalves LFG, Melo EV et al. Placa Aterosclerótica à Angiotomografia de Coronárias em Pacientes com Escore de Cálcio Zero. Arq Bras Cardiol 2018;110(5):420-427.
  3. Hecht HS, Blaha MJ, Kazerooni EA et al. CAC-DRS: Coronary Artery Calcium Data and Reporting System. An expert consensus document of the Society of Cardiovascular Computed Tomography (SCCT). J Cardiovasc Comput Tomogr 2018;12(3):185-191.
  4. Magalhães TA, Carneiro ACC, Moreira VM et al. Diretriz de Tomografia Computadorizada e Ressonância Magnética Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia e do Colégio Brasileiro de Radiologia, 2024. Arq Bras Cardiol 2024;121(9):e20240608.
  5. McClelland RL, Chung H, Detrano R, Post W, Kronmal RA. Distribution of coronary artery calcium by race, gender, and age: results from the Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis (MESA). Circulation 2006;113(1):30-37.
  6. SCOT-HEART Investigators. Coronary CT Angiography and 5-Year Risk of Myocardial Infarction. N Engl J Med 2018;379:924-933.
  7. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, 2025.
  8. Stocker TJ, Deseive S, Leipsic J et al. Reduction in radiation exposure in cardiovascular computed tomography imaging (PROTECTION VI). Eur Heart J 2018;39:3715-3723.

As informações desta página não substituem a consulta médica. Cada caso precisa de avaliação individual. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192.

Matheus Marques Franca

Médico · CRM-DF 17096
Especialista em Cardiologia, RQE 13949
Especialista em Clínica Médica, RQE 13950

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O número sozinho não decide nada. Ele entra junto com a sua história, o exame físico e os seus outros fatores. Atendo em Brasília, na Clínica Pulsarti, e por teleconsulta.

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