EM CASO DE EMERGÊNCIA — Dor no peito agora, ou dor que durou mais de 10 minutos, pede atendimento imediato. Procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192. Vale mesmo que a dor já tenha passado.
Nem toda dor no peito é infarto, nem toda dor no peito vem do coração. Nos prontos-socorros, de 5% a 20% das pessoas com dor no peito estão tendo um infarto ou uma angina instável, porém mais da metade dos casos não tem causa cardíaca. Só que a regra segue sendo a mesma: procurar atendimento rápido para descartar doenças mais graves.
Atualizado em 20 de setembro de 2026 · Próxima revisão em setembro de 2028
O que é dor no peito
O que conta como dor no peito?#
Dor no peito é o nome popular de um conjunto de sensações. Aperto, peso, queimação, pressão e desconforto entram todas na mesma categoria. Muita gente chega dizendo que não é bem uma dor.
A região também é maior do que o nome sugere. A diretriz brasileira considera qualquer dor entre o umbigo e a mandíbula com dor torácica. Ombro, braço, pescoço, costas e boca do estômago estão dentro dessa faixa.
Alguns sintomas valem como equivalentes da dor. Falta de ar, náusea, suor frio, cansaço súbito e desmaio entram nessa lista, principalmente em idosos e em pessoas com diabetes.
Quanto disso é do coração?#
Menos do que a maioria imagina. De cada 100 pessoas que chegam ao pronto-socorro com dor no peito, algo entre 5 e 20 estão com uma síndrome coronariana aguda, que é o nome que reúne o infarto e a angina instável.
Um levantamento americano publicado em 2026 acompanhou 13,7 milhões de atendimentos de emergência. Dor no peito sem trauma foi a queixa de 6,9% deles. Dentro desse grupo, 1 em cada 18 pessoas tinha uma condição que ameaça a vida. A síndrome coronariana aguda respondeu pela maior parte, seguida por embolia pulmonar, pneumotórax e dissecção de aorta.
Os números mudam conforme o lugar. No consultório, dor no peito responde por cerca de 1% das consultas, de 2% a 4% dessas pessoas estão com angina instável ou infarto. No pronto-socorro a proporção é maior, porque o sintoma mais assustador leva a pessoa para lá.
Quem está com uma causa grave de dor pode parecer bem. Pressão, pulso, oxigênio e exame físico podem estar todos normais nas primeiras horas de um infarto, de uma embolia ou de uma dissecção da aorta. A regra de procurar atendimento se apoia no sintoma, e não na aparência.
O que mais causa dor no peito
Quais são as causas mais comuns?#
A parede do tórax lidera. Entram aqui a costocondrite, que é a inflamação da junção entre a costela e o osso do meio do peito, a distensão muscular e as pancadas recentes.
O esôfago vem logo atrás. Refluxo, espasmo do esôfago, gastrite e úlcera causam dor que aperta ou queima no meio do peito. Entre pacientes de consultório com dor no peito, de 10% a 20% têm causa digestiva.
Ansiedade e crise de pânico causam dor no peito de verdade. A dor existe, é sentida no corpo e costuma vir acompanhada de respiração rápida, formigamento nas mãos e na boca.
As causas respiratórias são menos frequentes e mais graves. Embolia pulmonar, pneumonia e pneumotórax aparecem nessa lista, quase sempre com falta de ar junto.
No consultório a distribuição é conhecida. A parede do tórax responde por 20% a 50% dos casos, o refluxo por 10% a 20% e a costocondrite sozinha por cerca de 13%.
Como é a dor de cada uma?#
Cada causa tem um comportamento que costuma se repetir:
- Parede do tórax: dói quando alguém aperta o ponto e piora com o movimento ou com mudança posição
- Refluxo: queima, piora deitado e depois das refeições, e às vezes melhora com antiácido
- Pleura e pulmão: piora ao respirar fundo
- Pericardite, a inflamação da membrana que envolve o coração: melhora quando você está sentado e inclinado para a frente
- Ansiedade: vem com respiração rápida, formigamento e sensação de falta de ar
O herpes-zóster, o cobreiro, também gera dor na parede do tórax. A dor costuma aparecer de 2 a 3 dias antes das bolhas, nesse intervalo não há nada na pele.
Na crise de pânico, o aperto no peito costuma vir com uma sensação de morte iminente. Essa sensação é parte do quadro, não um sinal de gravidade.
Quatro achados apontam para a parede do tórax como a causa da dor: dor que reaparece quando se aperta o ponto, músculo tenso na região, dor em fisgada e ausência de tosse. Dois ou mais deles tornam essa origem mais provável. Num estudo alemão com 1.212 pacientes de consultório, a parede do tórax foi a causa em 46,6% dos casos.
Uma em cada quatro pessoas em crise de pânico tem dor no peito e falta de ar. A hiperventilação da crise chega a alterar o eletrocardiograma, o que confunde ainda mais o quadro.
Nenhuma dessas descrições fecha diagnóstico sozinha. Melhorar com antiácido não afasta o coração, por exemplo.
Quando a suspeita é do coração
O que aumenta a suspeita?#
São seis características, que quando aparecem juntas aumentam a chance de ser do coração:
- Aperto, peso ou pressão atrás do osso do meio do peito, difícil de apontar com um dedo
- Começa devagar e cresce ao longo de alguns minutos
- Aparece no esforço ou numa emoção forte
- Espalha para o braço, o pescoço, a mandíbula ou as costas
- Vem com falta de ar, náusea, suor frio ou tontura
- Dura mais de 10 minutos
O que diminui a suspeita?#
Outras características diminuem a possibilidade, mas não excluem doença cardiaca:
- Pontada de poucos segundos
- Dor que muda de lugar
- Dor que piora ao respirar fundo ou ao deitar
- Dor que aparece quando alguém aperta um ponto do peito
- Dor que dá para localizar com a ponta do dedo
Essas características tornam a origem cardíaca menos provável. Elas não a descartam.
Tem uma dor merece descrição própria: a da dissecção de aorta, que é o rasgo na parede da principal artéria do corpo. Ela começa de repente e já nasce com grande intensidade, costuma ser descrita como rasgando ou lacerando, caminha para as costas ou para a barriga. No maior registro internacional da doença, 85% dos casos tiveram esse início súbito. É uma causa rara, e o tempo até o diagnóstico muda o resultado.
Existe ainda a cardiomiopatia de estresse, conhecida como síndrome do coração partido. Ela aparece depois de um estresse emocional ou físico intenso, imita um infarto no eletrocardiograma e nos exames de sangue, o cateterismo mostra que as artérias coronarias não apresentam obstrução. Responde por 1% a 2% dos casos que chegam como suspeita de infarto.
Antes era comum usar sentença “dor de torax atípica”, mas a palavra atipica saiu de uso. Atípica era lida como inofensiva e isso poderia atrasar o diagnóstico. A diretriz americana de 2021 pediu que ela fosse abandonada e recomendou três classificações: dor torácica cardíaca, possivelmente cardíaca e não cardíaca.
E em mulheres, idosos e pessoas com diabetes?#
Dor no peito continua sendo o sintoma principal nos dois sexos. Entre pessoas com infarto confirmado, a frequência da dor é parecida em homens e mulheres. A diferença está no que vem junto. Mulheres relatam com mais frequência náusea, falta de ar, cansaço, palpitação e dor na mandíbula, no pescoço ou entre as escápulas.
Mulheres também têm mais risco de sair sem diagnóstico. Escores de risco e avaliações médicas subestimam o risco delas com frequência.
De 10% a 30% das síndromes coronarianas agudas acontecem sem dor no peito. Idosos e pessoas com diabetes são a maior parte desse grupo. Acima dos 75 anos, falta de ar, desmaio, confusão mental e queda sem explicação merecem a mesma atenção que a dor.
Quando procurar atendimento
Qual é a regra?#
São duas situações, e as duas vêm da diretriz brasileira:
- Qualquer dor acontecendo agora, entre o umbigo e a mandíbula
- Qualquer dor no peito que tenha durado mais de 10 minutos, mesmo que já tenha passado
Nos dois casos, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192.
Cuidado, evite dirijir sozinho até o hospital. Uma dor que piora no caminho tira a sua capacidade de dirigir. O serviçoes móveis de emergencia (ambulancias capacitadas) ainda podem fazer o eletrocardiograma antes de chegar e avisar o hospital, o que economiza minutos quando o caso é infarto.
E se a dor já passou?#
Passar não quer dizer que não houve nada. Na angina instável e no infarto, a dor pode ir e voltar várias vezes.
A regra dos 10 minutos existe justamente para isso. Ela vale para dor que já passou também.
O que acontece no pronto-socorro
Por que o eletrocardiograma vem antes de tudo?#
A recomendação é que o exame seja feito e avaliado por um médico em até 10 minutos da chegada, antes mesmo de uma conversa detalhada.
Em parte dos casos ele mostra uma artéria entupida naquele momento. Ali o tratamento começa imediatamente, e cada minuto de atraso custa músculo cardíaco.
Eletrocardiograma normal descarta infarto?#
Não. Um eletrocardiograma isolado detecta menos da metade dos infartos.
Com exames seriados, a chance de detector algo sobe para algo entre 70% e 90%. É por isso que o exame se repete ao longo da observação, mesmo com o primeiro normal.
O que é troponina?#
Troponina é uma proteína da musculatura do coração. Quando uma célula do músculo cardíaco sofre, ela cai na corrente sanguínea, e o exame de sangue a encontra.
Os exames de hoje são chamados de ultrassensíveis, porque detectam quantidades muito pequenas. Isso mudou a leitura do resultado: quase toda pessoa saudável tem um pouco de troponina detectável no sangue. Detectável e alterado são coisas diferentes.
Por que demora tanto?#
A troponina é uma proteína que o músculo do coração libera quando sofre qualquer dano, e o valor sobe ao longo de horas.
A troponina começa a subir de 2 a 3 horas depois da lesão, atinge o pico por volta de 12 horas e permanece alta por 7 a 10 dias. Quem chega muito cedo pode ter a primeira coleta normal, e é isso que a segunda coleta resolve.
Uma dosagem sozinha de troponina não resolve, dependendo do valor, claro. A comparação entre duas coletas separadas por um intervalo de tempo pode trazer muita informação.
Troponina alta é sempre infarto?#
Não. Troponina alta diz que o músculo do coração sofreu, sem dizer por quê. Miocardite, arritmia, embolia pulmonar, insuficiência cardíaca, infecção grave e doença renal avançada elevam o valor.
Esforço físico intenso também eleva. Num estudo com 40 corredores de maratona, 38 terminaram a prova com troponina acima do limite, e esse aumento não teve relação com placa nas coronárias.
O limite de referência é o percentil 99 de uma população saudável. Por definição, 1 em cada 100 pessoas sem doença fica acima dele. Um valor isolado pouco acima do limite não fecha diagnóstico de infarto.
Por que o limite é diferente entre homens e mulheres?#
Porque a massa do coração é menor nelas, e o valor de referência acompanha. Num estudo britânico com 1.126 pacientes, usar o limite específico para mulheres dobrou o diagnóstico de infarto nelas, de 11% para 22%, e quase não mudou nada nos homens.
Resultados de laboratórios diferentes também não se comparam entre si. Cada método tem o seu limite, e o número de um não vale para o outro. Leve o exame anterior, e deixe a comparação com quem está atendendo.
Um detalhe que quase ninguém conta: suplemento de biotina, comum nas fórmulas para cabelo e unha, interfere em vários exames de sangue, inclusive na troponina. O efeito passa em algumas horas. Se você toma, avise a equipe.
Depois que o coração foi descartado
Então a dor era invenção?#
Não. Descartar o coração responde a pergunta mais urgente e deixa a segunda em aberto: de onde vem essa dor.
Cerca de metade dos atendimentos por dor no peito termina sem uma causa específica identificada. Existe até um nome para isso: dor torácica inespecífica.
Dor que volta merece investigação. Refluxo, parede do tórax e ansiedade respondem pela maioria dos casos, e as três têm tratamento.
E quando a causa é ansiedade?#
O tratamento também existe. Encaminhar para terapia cognitivo-comportamental quem tem dor no peito repetida e investigação cardíaca negativa.
Existe uma pergunta única que ajuda a rastrear: nas últimas quatro semanas, você teve uma crise de ansiedade, com medo ou pânico súbito? Responder não torna o diagnóstico de pânico bem improvável.
Isso muda a conduta na próxima vez?#
Muda em parte. Uma investigação negativa recente dá contexto ao médico que atender a próxima crise.
Um teste ergométrico normal no passado não descarta infarto em quem está com dor agora.
A regra dos 10 minutos continua valendo. Uma dor diferente das anteriores, mais forte ou mais longa, volta a ser motivo para procurar atendimento.
O que costumo dizer sobre isso
Dor no peito merece ser dita. O que mais vejo é a pessoa minimizar a própria dor antes de qualquer médico entrar na história: foi gases, foi o colchão, foi o esforço de ontem. Ela me conta meses depois, de passagem, no fim da consulta.
Claro que o risco de a dor torácica ser algo grave não é igual para todo mundo. Idade, pressão, colesterol, diabetes, cigarro e história na família mudam bastante a chance de uma dor no peito vir do coração. Só que é difícil avaliar o tipo de dor sozinho, em casa, no momento em que ela acontece ou logo depois que passa.
Por isso, em caso de dúvida, sempre que for possível, consulte um especialista. Conversar sobre os fatores de risco e os sintomas, examinar e seguir para exames complementares aumentam bastante a chance de identificar a origem da dor e de seguir pelo melhor caminho até o diagnóstico.
Dor ou aperto no peito agora, dor que durou mais de 10 minutos, falta de ar intensa, suor frio, desmaio, fraqueza de um lado do corpo, boca torta ou dificuldade para falar pedem atendimento imediato. Procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192. Vale mesmo que o sintoma já tenha passado.
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Este texto tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso precisa de avaliação individual.
Matheus Marques Franca
Médico · CRM-DF 17096
Especialista em Cardiologia, RQE 13949
Especialista em Clínica Médica, RQE 13950