Pular para o conteúdo
Matheus Franca Agendar consulta
← Conversas de consultório

Sintomas

Dor no peito

O que pode ser, e quando procurar atendimento

EM CASO DE EMERGÊNCIA — Dor no peito agora, ou dor que durou mais de 10 minutos, pede atendimento imediato. Procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192. Vale mesmo que a dor já tenha passado.

Nem toda dor no peito é infarto, nem toda dor no peito vem do coração. Nos prontos-socorros, de 5% a 20% das pessoas com dor no peito estão tendo um infarto ou uma angina instável, porém mais da metade dos casos não tem causa cardíaca. Só que a regra segue sendo a mesma: procurar atendimento rápido para descartar doenças mais graves.

Atualizado em 20 de setembro de 2026 · Próxima revisão em setembro de 2028

Quer ver só o que interessa?

O que é dor no peito

O que conta como dor no peito?#

Onde a dor do coração pode aparecerUma pessoa vista de frente, de pé, com a mão aberta apoiada no meio do peito. Uma faixa sombreada vai da mandíbula até o umbigo: é a região que a diretriz brasileira considera ao avaliar dor torácica. Estão marcados os pontos para onde a dor do coração costuma se espalhar: mandíbula e pescoço, ombros, meio do peito atrás do osso do esterno, braços de um lado ou dos dois, e boca do estômago. As costas, entre as escápulas, também contam, embora não apareçam nesta vista de frente. Qualquer dor nessa faixa acontecendo agora, ou que tenha durado mais de 10 minutos, é motivo para procurar atendimento.Onde a dor do coração pode aparecerA faixa que conta vai do umbigo à mandíbulaO QUE EU PEÇO NA CONSULTAAponte onde dói. Quem cobre a área com a mão aberta e quem aponta com a pontado dedo costumam estar falando de coisas diferentes.mandíbulaumbigoMandíbula e pescoçoOmbrosMeio do peitoAtrás do osso, difícil de apontarBoca do estômagoBraços, um ou os doisCostas, entre as escápulasNão aparece nesta vista, e conta igual.Dor nessa faixa acontecendo agora, ou que durou mais de 10 minutos, pede atendimento.Procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192. Vale mesmo que a dor já tenha passado.Região e critério: Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência, 2025.Desenho esquemático. Esta figura não substitui a consulta médica.Matheus Marques Franca · Médico · CRM-DF 17096 · Cardiologia RQE 13949 · Clínica Médica RQE 13950
As regiões onde a dor de origem cardíaca pode aparecer. A diretriz brasileira considera dor torácica qualquer dor entre o umbigo e a mandíbula.

Dor no peito é o nome popular de um conjunto de sensações. Aperto, peso, queimação, pressão e desconforto entram todas na mesma categoria. Muita gente chega dizendo que não é bem uma dor.

A região também é maior do que o nome sugere. A diretriz brasileira considera qualquer dor entre o umbigo e a mandíbula com dor torácica. Ombro, braço, pescoço, costas e boca do estômago estão dentro dessa faixa.

Alguns sintomas valem como equivalentes da dor. Falta de ar, náusea, suor frio, cansaço súbito e desmaio entram nessa lista, principalmente em idosos e em pessoas com diabetes.

Quanto disso é do coração?#

De cada 100 pessoas com dor no peito no consultórioCem bolinhas representando cem pessoas que procuram o consultório com dor no peito. Três estão marcadas: são as que estão com angina instável ou infarto, algo entre duas e quatro em cada cem. As outras noventa e sete têm outra causa. Ao lado, as três causas mais frequentes, cada uma com um desenho da situação em que costuma aparecer. Parede do tórax, de 20% a 50%: costela, músculo e junta do peito, ilustrada por alguém carregando uma caixa. Refluxo e esôfago, de 10% a 20%: queimação que sobe do estômago, ilustrada por alguém sentado à mesa depois de comer. Coração, de 2% a 4%: angina instável ou infarto, ilustrada por alguém que parou no meio da escada com a mão no peito. As faixas vêm de estudos diferentes e não somam 100%.De cada 100 pessoas com dor no peito no consultórioQuantas estão com infarto ou angina instável, e de onde vem o restoO QUE EU VEJO NO CONSULTÓRIOA maior parte das dores no peito que eu avalio não vem do coração. Toda dor temuma causa, e qual é a sua só a avaliação diz.3estão com infarto ou angina instávelEntre 2 e 4, conforme o estudoParede do tórax20% a 50%Costela, músculo e junta do peito. Costuma doerao apertar o ponto ou ao mudar de posição.Refluxo e esôfago10% a 20%Queimação que sobe do estômago, em geraldepois de comer ou ao deitar.Coração2% a 4%Angina instável ou infarto. Aperto que apareceno esforço e cede no repouso.Dor acontecendo agora, ou que durou mais de 10 minutos, pede atendimento.Ligue 192 ou vá ao pronto-socorro. Isso vale antes de qualquer conta de probabilidade.Números de atendimento ambulatorial: McConaghy JR, Sharma M, Patel H. Am Fam Physician, 2020.As faixas vêm de estudos diferentes e não somam 100%.A costocondrite é uma das causas de parede do tórax, e responde sozinha por cerca de 13%.Esta figura não substitui a consulta médica.Matheus Marques Franca · Médico · CRM-DF 17096 · Cardiologia RQE 13949 · Clínica Médica RQE 13950
De cada 100 pessoas que chegam ao pronto-socorro com dor no peito, entre 5 e 20 estão com uma síndrome coronariana aguda.

Menos do que a maioria imagina. De cada 100 pessoas que chegam ao pronto-socorro com dor no peito, algo entre 5 e 20 estão com uma síndrome coronariana aguda, que é o nome que reúne o infarto e a angina instável.

Um levantamento americano publicado em 2026 acompanhou 13,7 milhões de atendimentos de emergência. Dor no peito sem trauma foi a queixa de 6,9% deles. Dentro desse grupo, 1 em cada 18 pessoas tinha uma condição que ameaça a vida. A síndrome coronariana aguda respondeu pela maior parte, seguida por embolia pulmonar, pneumotórax e dissecção de aorta.

Os números mudam conforme o lugar. No consultório, dor no peito responde por cerca de 1% das consultas, de 2% a 4% dessas pessoas estão com angina instável ou infarto. No pronto-socorro a proporção é maior, porque o sintoma mais assustador leva a pessoa para lá.

Quem está com uma causa grave de dor pode parecer bem. Pressão, pulso, oxigênio e exame físico podem estar todos normais nas primeiras horas de um infarto, de uma embolia ou de uma dissecção da aorta. A regra de procurar atendimento se apoia no sintoma, e não na aparência.

O que mais causa dor no peito

Quais são as causas mais comuns?#

A parede do tórax lidera. Entram aqui a costocondrite, que é a inflamação da junção entre a costela e o osso do meio do peito, a distensão muscular e as pancadas recentes.

O esôfago vem logo atrás. Refluxo, espasmo do esôfago, gastrite e úlcera causam dor que aperta ou queima no meio do peito. Entre pacientes de consultório com dor no peito, de 10% a 20% têm causa digestiva.

Ansiedade e crise de pânico causam dor no peito de verdade. A dor existe, é sentida no corpo e costuma vir acompanhada de respiração rápida, formigamento nas mãos e na boca.

As causas respiratórias são menos frequentes e mais graves. Embolia pulmonar, pneumonia e pneumotórax aparecem nessa lista, quase sempre com falta de ar junto.

No consultório a distribuição é conhecida. A parede do tórax responde por 20% a 50% dos casos, o refluxo por 10% a 20% e a costocondrite sozinha por cerca de 13%.

Como é a dor de cada uma?#

O que anotar sobre a dorUma ficha para anotar as características da dor no peito antes de procurar atendimento, ao lado do desenho de uma pessoa anotando no celular. O primeiro campo, destacado, é a hora em que a dor começou: é dele que dependem o intervalo entre as duas dosagens de troponina e a leitura da primeira coleta. Os outros campos são: se ainda está doendo e quanto durou; onde dói; como é a dor, se aperto, peso, queimação, pontada ou fisgada; para onde espalha; o que você estava fazendo quando começou; o que melhora e o que piora; o que veio junto, como falta de ar, suor frio, náusea, tontura ou desmaio; e se já aconteceu antes, igual ou diferente. Para levar junto: a lista dos remédios com as doses, exames do coração já feitos, se usa anticoagulante, alergias a medicamento, e se toma suplemento de biotina, que interfere na dosagem de troponina.O que anotar sobre a dorEstas respostas mudam a conduta de quem vai atender vocêPOR QUE EU PERGUNTO TUDO ISSOEu pergunto tudo isso na consulta e no pronto-socorro. Chegar com as respostasanotadas poupa tempo da equipe que vai atender você.Que horas a dor começou?É o dado mais importante da ficha. O intervalo entre as duas coletasde sangue se conta a partir dele.hora e minutoAinda está doendo? Quanto durou?Ainda dói agora, ou já passou. Durou ___ minutosOnde dói?Aponte com o dedo ou com a mão abertaComo é a dor?Aperto, peso, queimação, pontada, fisgadaEspalha para onde?Braço, pescoço, mandíbula, costas, boca do estômagoO que você estava fazendo?Esforço, repouso, depois de comer, emoção forteO que melhora e o que piora?Parar, respirar fundo, mudar de posição, antiácidoO que veio junto?Falta de ar, suor frio, náusea, tontura, desmaioJá aconteceu antes?Igual ou diferente das outras vezesLeve com vocêA lista dos seus remédios, com as dosesExames do coração que você já fezSe usa anticoagulanteAlergias a medicamentoSe toma suplemento de biotina, comum em fórmulas para cabelo e unhaAnotar não substitui ir. Dor agora, ou que durou mais de 10 minutos, pede atendimento imediato.Itens da anamnese: Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência, 2025.Esta ficha não substitui a consulta médica.Matheus Marques Franca · Médico · CRM-DF 17096 · Cardiologia RQE 13949 · Clínica Médica RQE 13950
O que vale anotar sobre a dor antes da consulta. A descrição de quando ela aparece e quanto dura costuma dizer mais que o exame.

Cada causa tem um comportamento que costuma se repetir:

  • Parede do tórax: dói quando alguém aperta o ponto e piora com o movimento ou com mudança posição
  • Refluxo: queima, piora deitado e depois das refeições, e às vezes melhora com antiácido
  • Pleura e pulmão: piora ao respirar fundo
  • Pericardite, a inflamação da membrana que envolve o coração: melhora quando você está sentado e inclinado para a frente
  • Ansiedade: vem com respiração rápida, formigamento e sensação de falta de ar

O herpes-zóster, o cobreiro, também gera dor na parede do tórax. A dor costuma aparecer de 2 a 3 dias antes das bolhas, nesse intervalo não há nada na pele.

Na crise de pânico, o aperto no peito costuma vir com uma sensação de morte iminente. Essa sensação é parte do quadro, não um sinal de gravidade.

Quatro achados apontam para a parede do tórax como a causa da dor: dor que reaparece quando se aperta o ponto, músculo tenso na região, dor em fisgada e ausência de tosse. Dois ou mais deles tornam essa origem mais provável. Num estudo alemão com 1.212 pacientes de consultório, a parede do tórax foi a causa em 46,6% dos casos.

Uma em cada quatro pessoas em crise de pânico tem dor no peito e falta de ar. A hiperventilação da crise chega a alterar o eletrocardiograma, o que confunde ainda mais o quadro.

Nenhuma dessas descrições fecha diagnóstico sozinha. Melhorar com antiácido não afasta o coração, por exemplo.

Quando a suspeita é do coração

O que aumenta a suspeita?#

São seis características, que quando aparecem juntas aumentam a chance de ser do coração:

  • Aperto, peso ou pressão atrás do osso do meio do peito, difícil de apontar com um dedo
  • Começa devagar e cresce ao longo de alguns minutos
  • Aparece no esforço ou numa emoção forte
  • Espalha para o braço, o pescoço, a mandíbula ou as costas
  • Vem com falta de ar, náusea, suor frio ou tontura
  • Dura mais de 10 minutos

O que diminui a suspeita?#

Outras características diminuem a possibilidade, mas não excluem doença cardiaca:

  • Pontada de poucos segundos
  • Dor que muda de lugar
  • Dor que piora ao respirar fundo ou ao deitar
  • Dor que aparece quando alguém aperta um ponto do peito
  • Dor que dá para localizar com a ponta do dedo

Essas características tornam a origem cardíaca menos provável. Elas não a descartam.

Tem uma dor merece descrição própria: a da dissecção de aorta, que é o rasgo na parede da principal artéria do corpo. Ela começa de repente e já nasce com grande intensidade, costuma ser descrita como rasgando ou lacerando, caminha para as costas ou para a barriga. No maior registro internacional da doença, 85% dos casos tiveram esse início súbito. É uma causa rara, e o tempo até o diagnóstico muda o resultado.

Existe ainda a cardiomiopatia de estresse, conhecida como síndrome do coração partido. Ela aparece depois de um estresse emocional ou físico intenso, imita um infarto no eletrocardiograma e nos exames de sangue, o cateterismo mostra que as artérias coronarias não apresentam obstrução. Responde por 1% a 2% dos casos que chegam como suspeita de infarto.

Antes era comum usar sentença “dor de torax atípica”, mas a palavra atipica saiu de uso. Atípica era lida como inofensiva e isso poderia atrasar o diagnóstico. A diretriz americana de 2021 pediu que ela fosse abandonada e recomendou três classificações: dor torácica cardíaca, possivelmente cardíaca e não cardíaca.

E em mulheres, idosos e pessoas com diabetes?#

Dor no peito continua sendo o sintoma principal nos dois sexos. Entre pessoas com infarto confirmado, a frequência da dor é parecida em homens e mulheres. A diferença está no que vem junto. Mulheres relatam com mais frequência náusea, falta de ar, cansaço, palpitação e dor na mandíbula, no pescoço ou entre as escápulas.

Mulheres também têm mais risco de sair sem diagnóstico. Escores de risco e avaliações médicas subestimam o risco delas com frequência.

De 10% a 30% das síndromes coronarianas agudas acontecem sem dor no peito. Idosos e pessoas com diabetes são a maior parte desse grupo. Acima dos 75 anos, falta de ar, desmaio, confusão mental e queda sem explicação merecem a mesma atenção que a dor.

Quando procurar atendimento

Qual é a regra?#

Quando procurar atendimento agoraAs duas situações em que procurar atendimento imediatamente por dor no peito. A primeira é dor acontecendo agora, em qualquer ponto entre o umbigo e a mandíbula. A segunda é dor que tenha durado mais de dez minutos, e ela vale mesmo que a dor já tenha passado. Em seguida, seis sinais que aumentam a suspeita de que a dor venha do coração: aperto, peso ou pressão atrás do osso do meio do peito; começo lento que cresce ao longo de minutos; surgimento no esforço ou numa emoção forte; irradiação para o braço, o pescoço, a mandíbula ou as costas; falta de ar, náusea, suor frio ou tontura junto; e dor difícil de apontar com a ponta de um dedo. Nenhum desses sinais é condição para procurar atendimento: as duas regras bastam sozinhas. No fim, um desenho de uma pessoa acompanhando outra, com a orientação de ligar 192 ou pedir que alguém leve você, e de evitar dirigir.Quando procurar atendimento agoraDuas situações, e as duas bastam sozinhasO QUE EU DIGO NA CONSULTAIr e não ser nada é um bom desfecho. Prefiro ver você no mesmo dia a ouvir sobrea dor uma semana depois.1Dor acontecendo agoraEm qualquer ponto entre o umbigoe a mandíbula2Dor que durou mais de 10 minutosVale mesmo que já tenha passadoquando você for procurar ajudaO que aumenta a suspeita de que a dor venha do coraçãoAperto, peso ou pressão atrás do osso do meio do peitoComeça devagar e cresce ao longo de alguns minutosAparece no esforço ou numa emoção forteEspalha para o braço, o pescoço, a mandíbula ou as costasVem com falta de ar, náusea, suor frio ou tonturaDifícil de apontar com a ponta de um dedoNenhum desses sinais é condição para ir. As duas regras acima bastam.Ligue 192 ou peça para alguém levar você.Evite dirigir: a dor pode piorar no caminho.Critérios: Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência, 2025.Esta figura não substitui a consulta médica.Matheus Marques Franca · Médico · CRM-DF 17096 · Cardiologia RQE 13949 · Clínica Médica RQE 13950
As duas situações que pedem atendimento imediato. As duas são de tempo, e não de intensidade.

São duas situações, e as duas vêm da diretriz brasileira:

  • Qualquer dor acontecendo agora, entre o umbigo e a mandíbula
  • Qualquer dor no peito que tenha durado mais de 10 minutos, mesmo que já tenha passado

Nos dois casos, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192.

Cuidado, evite dirijir sozinho até o hospital. Uma dor que piora no caminho tira a sua capacidade de dirigir. O serviçoes móveis de emergencia (ambulancias capacitadas) ainda podem fazer o eletrocardiograma antes de chegar e avisar o hospital, o que economiza minutos quando o caso é infarto.

E se a dor já passou?#

Passar não quer dizer que não houve nada. Na angina instável e no infarto, a dor pode ir e voltar várias vezes.

A regra dos 10 minutos existe justamente para isso. Ela vale para dor que já passou também.

O que acontece no pronto-socorro

Por que o eletrocardiograma vem antes de tudo?#

A recomendação é que o exame seja feito e avaliado por um médico em até 10 minutos da chegada, antes mesmo de uma conversa detalhada.

Em parte dos casos ele mostra uma artéria entupida naquele momento. Ali o tratamento começa imediatamente, e cada minuto de atraso custa músculo cardíaco.

Eletrocardiograma normal descarta infarto?#

Não. Um eletrocardiograma isolado detecta menos da metade dos infartos.

Com exames seriados, a chance de detector algo sobe para algo entre 70% e 90%. É por isso que o exame se repete ao longo da observação, mesmo com o primeiro normal.

O que é troponina?#

Troponina é uma proteína da musculatura do coração. Quando uma célula do músculo cardíaco sofre, ela cai na corrente sanguínea, e o exame de sangue a encontra.

Os exames de hoje são chamados de ultrassensíveis, porque detectam quantidades muito pequenas. Isso mudou a leitura do resultado: quase toda pessoa saudável tem um pouco de troponina detectável no sangue. Detectável e alterado são coisas diferentes.

Por que demora tanto?#

Por que a espera no pronto-socorro demoraA sequência do atendimento a quem chega ao pronto-socorro com dor no peito. Na chegada, eletrocardiograma, feito e avaliado por um médico em até dez minutos. Logo depois, a primeira dosagem de troponina, que pode vir normal se a dor começou há pouco tempo. De uma a três horas depois, a segunda dosagem, e o que decide é a diferença entre as duas. Ao longo da espera, o eletrocardiograma é repetido, o que eleva a detecção de infarto de menos de metade para algo entre 70% e 90%. Abaixo, uma curva mostra a troponina no sangue ao longo do tempo: ela começa a subir de 2 a 3 horas depois da lesão do músculo, atinge o pico por volta de 12 horas e permanece alta por 7 a 10 dias. No fim, o desenho de alguém sentado esperando, com a explicação de que uma dosagem é uma foto e duas são um filme.Por que a espera no pronto-socorro demoraA espera na maca é o próprio exame acontecendoO QUE EU EXPLICO ENQUANTO VOCÊ ESPERAEsperar com dor no peito é ruim, e eu sei disso. A espera na maca é o exameacontecendo, e não fila parada.Na chegadaEletrocardiogramaFeito e avaliado por ummédico em até 10 minutosLogo depoisPrimeira troponinaPode vir normal se a dorcomeçou há pouco1 a 3 horasSegunda troponinaO que decide é adiferença entre as duasAo longo da esperaNovo eletrocardiogramaRepetir sobe a detecçãode 50% para 70 a 90%A troponina no sangue, ao longo do tempodor3 h12 h2 dias10 diascomeça a subirpicoUma dosagem é uma foto. Duas são um filme.Quem chega na primeira hora pode ter a primeira coleta normal. É a segunda que responde.Tempos do atendimento: Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência, 2025.A curva é esquemática. O formato e a altura variam conforme a pessoa, o tamanho da lesão e o método do laboratório.Esta figura não substitui a consulta médica.Matheus Marques Franca · Médico · CRM-DF 17096 · Cardiologia RQE 13949 · Clínica Médica RQE 13950
Por que a avaliação leva horas. A troponina começa a subir de 2 a 3 horas depois da lesão, e é a comparação entre duas coletas que responde.

A troponina é uma proteína que o músculo do coração libera quando sofre qualquer dano, e o valor sobe ao longo de horas.

A troponina começa a subir de 2 a 3 horas depois da lesão, atinge o pico por volta de 12 horas e permanece alta por 7 a 10 dias. Quem chega muito cedo pode ter a primeira coleta normal, e é isso que a segunda coleta resolve.

Uma dosagem sozinha de troponina não resolve, dependendo do valor, claro. A comparação entre duas coletas separadas por um intervalo de tempo pode trazer muita informação.

Troponina alta é sempre infarto?#

Não. Troponina alta diz que o músculo do coração sofreu, sem dizer por quê. Miocardite, arritmia, embolia pulmonar, insuficiência cardíaca, infecção grave e doença renal avançada elevam o valor.

Esforço físico intenso também eleva. Num estudo com 40 corredores de maratona, 38 terminaram a prova com troponina acima do limite, e esse aumento não teve relação com placa nas coronárias.

O limite de referência é o percentil 99 de uma população saudável. Por definição, 1 em cada 100 pessoas sem doença fica acima dele. Um valor isolado pouco acima do limite não fecha diagnóstico de infarto.

Por que o limite é diferente entre homens e mulheres?#

Porque a massa do coração é menor nelas, e o valor de referência acompanha. Num estudo britânico com 1.126 pacientes, usar o limite específico para mulheres dobrou o diagnóstico de infarto nelas, de 11% para 22%, e quase não mudou nada nos homens.

Resultados de laboratórios diferentes também não se comparam entre si. Cada método tem o seu limite, e o número de um não vale para o outro. Leve o exame anterior, e deixe a comparação com quem está atendendo.

Um detalhe que quase ninguém conta: suplemento de biotina, comum nas fórmulas para cabelo e unha, interfere em vários exames de sangue, inclusive na troponina. O efeito passa em algumas horas. Se você toma, avise a equipe.

Depois que o coração foi descartado

Então a dor era invenção?#

Não. Descartar o coração responde a pergunta mais urgente e deixa a segunda em aberto: de onde vem essa dor.

Cerca de metade dos atendimentos por dor no peito termina sem uma causa específica identificada. Existe até um nome para isso: dor torácica inespecífica.

Dor que volta merece investigação. Refluxo, parede do tórax e ansiedade respondem pela maioria dos casos, e as três têm tratamento.

E quando a causa é ansiedade?#

O tratamento também existe. Encaminhar para terapia cognitivo-comportamental quem tem dor no peito repetida e investigação cardíaca negativa.

Existe uma pergunta única que ajuda a rastrear: nas últimas quatro semanas, você teve uma crise de ansiedade, com medo ou pânico súbito? Responder não torna o diagnóstico de pânico bem improvável.

Isso muda a conduta na próxima vez?#

Muda em parte. Uma investigação negativa recente dá contexto ao médico que atender a próxima crise.

Um teste ergométrico normal no passado não descarta infarto em quem está com dor agora.

A regra dos 10 minutos continua valendo. Uma dor diferente das anteriores, mais forte ou mais longa, volta a ser motivo para procurar atendimento.

O que costumo dizer sobre isso

Dor no peito merece ser dita. O que mais vejo é a pessoa minimizar a própria dor antes de qualquer médico entrar na história: foi gases, foi o colchão, foi o esforço de ontem. Ela me conta meses depois, de passagem, no fim da consulta.

Claro que o risco de a dor torácica ser algo grave não é igual para todo mundo. Idade, pressão, colesterol, diabetes, cigarro e história na família mudam bastante a chance de uma dor no peito vir do coração. Só que é difícil avaliar o tipo de dor sozinho, em casa, no momento em que ela acontece ou logo depois que passa.

Por isso, em caso de dúvida, sempre que for possível, consulte um especialista. Conversar sobre os fatores de risco e os sintomas, examinar e seguir para exames complementares aumentam bastante a chance de identificar a origem da dor e de seguir pelo melhor caminho até o diagnóstico.

Dor ou aperto no peito agora, dor que durou mais de 10 minutos, falta de ar intensa, suor frio, desmaio, fraqueza de um lado do corpo, boca torta ou dificuldade para falar pedem atendimento imediato. Procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192. Vale mesmo que o sintoma já tenha passado.

Referências

  1. de Barros e Silva PGM, Soeiro AM, Ornelas CE, Feitosa-Filho GS, Lopes RD, et al. Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250620. doi:10.36660/abc.20250620
  2. Apple FS, Wu AHB, Sandoval Y, Love SA, Okeson B, et al. Sex-Specific 99th Percentile Upper Reference Limits for High Sensitivity Cardiac Troponin Assays Derived Using a Universal Sample Bank. Clin Chem. 2020;66(3):434-444. doi:10.1093/clinchem/hvz029
  3. Bösner S, Becker A, Hani MA, Keller H, Sönnichsen AC, et al. Chest wall syndrome in primary care patients with chest pain: presentation, associated features and diagnosis. Fam Pract. 2010;27(4):363-369. doi:10.1093/fampra/cmq024
  4. Gulati M, Levy PD, Mukherjee D, Amsterdam E, Bhatt DL, et al. 2021 AHA/ACC/ASE/CHEST/SAEM/SCCT/SCMR Guideline for the Evaluation and Diagnosis of Chest Pain. J Am Coll Cardiol. 2021;78(22):e187-e285. doi:10.1016/j.jacc.2021.07.053
  5. Hagan PG, Nienaber CA, Isselbacher EM, Bruckman D, Karavite DJ, et al. The International Registry of Acute Aortic Dissection (IRAD): new insights into an old disease. JAMA. 2000;283(7):897-903. doi:10.1001/jama.283.7.897
  6. Henrikson CA, Howell EE, Bush DE, Miles JS, Meininger GR, et al. Chest pain relief by nitroglycerin does not predict active coronary artery disease. Ann Intern Med. 2003;139(12):979-986. doi:10.7326/0003-4819-139-12-200312160-00007
  7. Hsia RY, Hale Z, Tabas JA. A National Study of the Prevalence of Life-Threatening Diagnoses in Patients With Chest Pain. JAMA Intern Med. 2016;176(7):1029-1032. doi:10.1001/jamainternmed.2016.2498
  8. Huffman JC, Pollack MH, Stern TA. Panic Disorder and Chest Pain: Mechanisms, Morbidity, and Management. Prim Care Companion J Clin Psychiatry. 2002;4(2):54-62. doi:10.4088/pcc.v04n0203
  9. Löwe B, Gräfe K, Zipfel S, Spitzer RL, Herrmann-Lingen C, et al. Detecting panic disorder in medical and psychosomatic outpatients: comparative validation of the Hospital Anxiety and Depression Scale, the Patient Health Questionnaire, a screening question, and physicians' diagnosis. J Psychosom Res. 2003;55(6):515-519. doi:10.1016/S0022-3999(03)00072-2
  10. McConaghy JR, Sharma M, Patel H. Acute Chest Pain in Adults: Outpatient Evaluation. Am Fam Physician. 2020;102(12):721-727. PMID:33320506
  11. Paana T, Jaakkola S, Bamberg K, Saraste A, Tuunainen E, et al. Cardiac troponin elevations in marathon runners. Role of coronary atherosclerosis and skeletal muscle injury. The MaraCat Study. Int J Cardiol. 2019;295:25-28. doi:10.1016/j.ijcard.2019.08.019
  12. Rice DR, Pallaci MJ, Weinstock MB, Cray SS, Foster KM, et al. The prevalence of life-threatening diagnoses in emergency department patients with chest pain in a national group. Am J Emerg Med. 2026;106:96-101. doi:10.1016/j.ajem.2026.05.006
  13. Shah ASV, Griffiths M, Lee KK, McAllister DA, Hunter AL, et al. High sensitivity cardiac troponin and the under-diagnosis of myocardial infarction in women: prospective cohort study. BMJ. 2015;350:g7873. doi:10.1136/bmj.g7873
  14. Trambas C, Lu Z, Yen T, Sikaris K. Characterization of the scope and magnitude of biotin interference in susceptible Roche Elecsys competitive and sandwich immunoassays. Ann Clin Biochem. 2018;55(2):205-215. doi:10.1177/0004563217701777

Este texto tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso precisa de avaliação individual.

Matheus Marques Franca

Médico · CRM-DF 17096
Especialista em Cardiologia, RQE 13949
Especialista em Clínica Médica, RQE 13950

Compartilhar: WhatsApp E-mail Copiar link

Dor que volta merece consulta

Dor que já passou, que repete ou que aparece sempre no mesmo esforço pede avaliação com calma. Atendo em Brasília, na Clínica Pulsarti, e por teleconsulta.

Agendar pelo WhatsApp