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Exames que complementam

Placa na carótida

EM CASO DE EMERGÊNCIA — Fraqueza ou dormência de um lado do corpo, boca torta, fala embolada, dificuldade de entender o que falam com você, ou perda da visão de um olho: procure o pronto-socorro imediatamente ou ligue 192. Mesmo que passe em poucos minutos. Ter passado sozinho não quer dizer que não foi nada.

Placa na carótida é o acúmulo de gordura dentro da parede das artérias do pescoço que levam sangue ao cérebro. Na maioria das pessoas ela não causa sintoma e aparece no Doppler de carótidas, um ultrassom do pescoço. Quem tem placa ali costuma ter o mesmo processo em outras artérias do corpo, não um problema restrito ao pescoço. Na prática, isso muda a leitura da gravidade e a intensidade do tratamento.

Atualizado em 18 de setembro de 2026 · Próxima revisão em setembro de 2028

Quer ver só o que interessa?

O que é

O que são as carótidas?#

Onde fica a placa na carótidaEsquema da carótida no pescoço. A carótida comum sobe e se divide em carótida interna, que leva sangue ao cérebro, e carótida externa, que irriga o rosto. Na bifurcação aparece uma placa de gordura dentro da parede. Abaixo, um corte da artéria mostra a parede, o sangue passando no centro e a placa ocupando parte da passagem.Onde fica a placa na carótidaAnatomia e local mais comumNo pescoço123451Carótida comumsobe pelo pescoço, dá para sentir o pulso2Bifurcaçãoonde a placa costuma se formar3Carótida internaleva sangue ao cérebro4Carótida externairriga o rosto e o couro cabeludo5Placagordura acumulada dentro da paredePor dentro da artériaA placa cresce dentro da parede, empurrando para o centro.O sangue passa pelo espaço que sobra, em rosa no desenho.Por isso dá para ter placa sem a passagem estar muito estreitada.A placa se forma com mais frequência na bifurcação, onde o sangue deixa de correr em linha reta.Desenho esquemático, fora de escala.
As duas carótidas se dividem em interna e externa. A placa se forma com mais frequência na bifurcação, onde o sangue deixa de correr em linha reta.

São duas artérias que têm origem na aorta, uma de cada lado do pescoço. Por elas passam a maior parte do sangue que chega ao cérebro.

Cada carótida se divide em dois ramos, o interno e o externo. Esse ponto de divisão recebe o nome de bifurcação, ou bulbo carotídeo. A placa de gordura pode aparecer em qualquer trecho das artérias, porém é mais comum na bifurcação, local onde o sangue deixa de correr em linha reta e a parede arterial sofre um pouco mais.

O que é a placa na carótida?#

É um acúmulo de gordura, células de defesa e, com o tempo, cálcio, dentro da parede da artéria. É a mesma doença que entope as artérias do coração, conhecida como aterosclerose. Muda o endereço, não o processo.

No ultrassom existe um critério objetivo para chamar de placa. Considera-se placa quando no ultrassom:

  • A estrutura avança pelo menos 0,5 milímetro para dentro da artéria, ou
  • Quando mede mais da metade da espessura da parede vizinha, ou
  • Quando a parede passa de 1,5 milímetro de espessura.

Placa na carótida é comum?#

É mais comum do que a maioria das pessoas imagina. Entre os adultos de 30 a 79 anos, cerca de 21% têm placa na carótida, ou seja, uma em cada cinco pessoas. Já o estreitamento de 50% ou mais é bem mais raro, em torno de 1,5%. Nos dois casos a frequência sobe com a idade e é maior em homens.

Placa é a mesma coisa que carótida entupida?#

Não, e essa confusão é frequente. Placa é o depósito de gordura na parede da artéria. Estenose é o quanto esse depósito estreita a passagem do sangue. Apesar de terem relação, são coisas diferentes. É possível ter placa e o laudo descrever estreitamento de 0%. Não é contradição. Placa e estreitamento são duas medidas diferentes, e a ausência de uma não exclui a outra.

Dá para ter placa com maior ou menor estreitamento. A artéria tem uma margem de acomodação, ela alarga um pouco para compensar o estreitamento, por isso a passagem de sangue demora a ficar comprometida. Conforme a placa engrossa, o estreitamento aumenta, em alguns casos chega à obstrução completa.

Sinais e sintomas

Placa na carótida dá sintoma?#

Na maior parte das vezes, não. Ela cresce devagar, ao longo de anos, e não dói. Entre as pessoas com mais de 65 anos, de 5 a 10% têm estreitamento de 50% ou mais sem nunca terem sentido nada.

Não existe dor de cabeça ou no pescoço, tontura ou zumbido que seja sintoma de placa na carótida.

Quais são os sinais de alerta?#

Sinais de alertaCinco sinais de alerta, todos de início súbito: fraqueza de um lado do corpo, boca torta, fala embolada, perda da visão de um olho e perda de equilíbrio. Diante de qualquer um deles, procure o pronto-socorro ou ligue 192, mesmo que o sintoma tenha passado sozinho.Sinais de alertaQuando a placa na carótida vira emergênciaTodos aparecem de repente1Fraqueza de um ladono rosto, no braço ou na perna2Boca tortaum lado do rosto caído3Fala emboladaou dificuldade de entender4Visão que apagade um olho só, como uma cortina5Perda de equilíbriosem explicação, de repenteProcure o pronto-socorro agora ou ligue 192Vale mesmo que o sintoma tenha passado sozinhoUm sintoma que passa em minutos tem nome: ataque isquêmico transitório. É o aviso, não o alarme falso.
Os sinais que aparecem de uma hora para outra. Qualquer um deles, mesmo que passe, é motivo para procurar atendimento imediato.

Em geral, a placa causa sintoma quando um fragmento se solta e entupe um vaso dentro do cérebro ou do olho. É súbito, de uma hora para outra:

  • Fraqueza ou dormência de um lado do corpo, no rosto, no braço ou na perna
  • Boca torta
  • Fala embolada, ou dificuldade de encontrar as palavras, ou de entender o que falam com você
  • Perda da visão de um olho, que a pessoa costuma descrever como uma cortina descendo
  • Perda súbita de equilíbrio ou de coordenação

Qualquer um deles, mesmo isolado e mesmo que passe, é motivo para procurar o pronto-socorro na hora. Não espere.

Causas e risco

O que aumenta o risco?#

São os mesmos fatores da doença nas artérias do coração, o que já diz muito sobre a natureza do problema:

  • Idade. A cada 10 anos a mais, a chance aumenta entre 60 e 70%.
  • Cigarro. A cada 10 cigarros por dia, a chance aumenta entre 30 e 50%.
  • Pressão alta. A cada 10 mmHg de máxima acima de 120, a chance aumenta cerca de 20%.
  • Colesterol alto. A cada 20 mg/dL de colesterol total acima de 200, a chance aumenta entre 10 e 20%.

Somam-se a eles o diabetes, doença renal, história familiar de doença cardiovascular (AVC e infarto, por exemplo), sedentarismo e excesso de peso. E quem já tem placa em outro território, no coração ou nas pernas, tem mais chance de ter também na carótida.

Quem deveria investigar?#

Não é exame de rotina para todo mundo. Fazer ultrassom de carótida em quem tem risco baixo costuma gerar mais ansiedade do que informação útil. Considera-se avaliar:

  • Quem tem doença conhecida nas artérias do coração, nas pernas ou aneurisma de aorta
  • Quem tem dois ou mais fatores de risco, como pressão alta, colesterol alto e tabagismo
  • Quem teve qualquer um dos sintomas neurológicos descritos acima
  • Quem tem sopro audível no pescoço

Fora dessas situações, a decisão é individual e vale conversar antes de pedir.

Vale explicar por que não se procura isso em todo mundo. Estreitamento importante atinge perto de 1,5% dos adultos, e estreitamento de carótida responde por cerca de 8% dos AVCs isquêmicos. Procurar algo pouco frequente em muita gente produz mais resultado falso do que verdadeiro, e acaba gerando mais ansiedade, exames a mais e, às vezes, procedimentos desnecessários.

Diagnóstico

Como se faz o diagnóstico?#

Corte longitudinal de uma carótida no ultrassom. A placa de gordura aparece como o relevo que avança para dentro do vaso, na divisão entre a carótida interna e a externa.
Corte longitudinal de uma carótida no ultrassom. A placa de gordura aparece como o relevo que avança para dentro do vaso, na divisão entre a carótida interna e a externa.
Imagem do exame do próprio autor, com as marcações traduzidas.

Com o Doppler de carótidas, que é um ultrassom das artérias do pescoço. Ele mostra a parede da artéria, avalia a presença ou não de gordura e mede a velocidade do sangue passando. Quanto mais espessa a placa, mais estreito fica o caminho, e mais rápido o sangue precisa correr para passar pelo mesmo lugar.

O exame não usa radiação, não precisa de contraste e não tem risco associado.

Como é o exame? Preciso de preparo?#

Não precisa de qualquer preparo.

Você deita de barriga para cima, com a cabeça levemente virada para o lado. Evite colares e camisas de gola alta, que atrapalham o acesso ao pescoço.

O que o laudo costuma dizer?#

O mesmo vaso em dois cortes. Os colchetes mostram onde o diâmetro foi medido: de parede a parede e no que sobrou de passagem.
O mesmo vaso em dois cortes. Os colchetes mostram onde o diâmetro foi medido: de parede a parede e no que sobrou de passagem.
Imagem do exame do próprio autor, com as marcações traduzidas.

O laudo do Doppler de carótidas costuma trazer:

  • A espessura médio-intimal, a medida da parede da artéria
  • Se existe placa, em qual artéria e em que ponto dela
  • Como é a placa: calcificada, mais mole, com superfície regular ou irregular
  • O grau de estreitamento, quando existe, expresso em faixas
  • As artérias vertebrais, que também levam sangue ao cérebro, por trás

Vale saber que a medida da espessura médio-intimal não é recomendada como rotina na população em geral. Ela aparece em muitos laudos e costuma ser supervalorizada. A presença de placa prevê risco melhor do que essa medida sozinha.

O aspecto da placa é o item que costuma passar em branco, porém traz muitas informações que ajudam a interpretar a gravidade. O ultrassom mostra se a placa é mais calcificada ou mais mole, se a superfície dela é lisa ou escavada. Por isso eu leio o laudo inteiro, não só o percentual.

O que significa o grau de estenose?#

Grau de estenoseFaixas de estreitamento da carótida: abaixo de 50% é leve, de 50 a 69% é moderada, e de 70% para cima é importante. O número sozinho não define o tratamento: contam também as características da placa, a presença de sintoma e o risco cardiovascular global. A maioria das pessoas com placa na carótida trata sem cirurgia.Grau de estenoseO que os números do laudo querem dizerComo o laudo classifica o estreitamentoEstenose menor que 50%Estenose de 50 a 69%Estenose maior que 70%O número sozinho não define o tratamentoContam também como é a placa, se houve sintoma e o seu risco como um todo.A grande maioria das pessoas com placa na carótida trata sem cirurgia.O grau vem em faixas de 10%, e não em número exato: toda estimativa tem margem.Classificação conforme a Atualização DIC, CBR e SBACV, 2023.
O estreitamento é informado em faixas, e não em número exato. O percentual sozinho não define a conduta.

Estenose é o mesmo que estreitamento, em geral informado em faixas de 10% pois é difícil definir um número exato. Isso ocorre porque toda estimativa tem uma margem de variação natural.

De forma geral, estreitamentos maiores que 50% indicam necessidade de prosseguir a investigação com outros exames, principalmente quando passam de 70%. Lembro que o percentual isoladamente não define conduta, do mesmo modo que o valor de colesterol sozinho não define meta de tratamento. O que decide tratamento é o conjunto dos dados: o grau de estenose, as características da placa, se houve sintoma e o seu risco global.

Placa na carótida muda a minha meta de colesterol?#

Muda. O primeiro passo é definir o seu risco cardiovascular, encontrar placa num exame de imagem entra nessa conta. Risco mais alto significa meta de LDL mais baixa. Em quem tem diabetes ou doença já conhecida nas artérias do coração ou das pernas, o alvo costuma ficar abaixo de 70 mg/dL. Se você quiser entender como essas faixas funcionam, escrevi sobre isso no texto de colesterol alto.

Tratamento

Como se trata?#

Na grande maioria dos casos, o tratamento é clínico, sem procedimento.

  • Parar de fumar. É a medida isolada de maior impacto.
  • Controlar a pressão.
  • Baixar o LDL até a meta, geralmente com estatina, e com outros remédios associados quando ela não basta.
  • Controlar o diabetes, se houver. Nesse grupo, o diabetes dobra o risco de AVC.
  • Atividade física, pelo menos 150 minutos por semana.
  • Peso e alimentação, no sentido de menos gordura saturada, menos sal, mais fibras.

A placa some com o tratamento?#

Não some. Ela não se dissolve e o objetivo não é fazê-la desaparecer. O objetivo é estabilizar. A maior parte dos eventos graves não acontece porque a placa cresceu até fechar a artéria, e sim porque ela se rompeu e formou um coágulo.

Vou precisar operar?#

A maioria das pessoas não. Existem dois procedimentos, a cirurgia de retirada da placa, chamada endarterectomia, e o stent de carótida. Os dois são reservados a casos selecionados, com estreitamento importante e características de risco, a decisão é tomada em conjunto, considerando os sintomas, o risco do próprio procedimento e a expectativa de benefício.

O tamanho do estreitamento é o que mais pesa nessa decisão. Reunindo os grandes estudos, com mais de 6 mil pessoas que já tinham tido sintoma, a cirurgia foi claramente benéfica nos estreitamentos de 70% ou mais, teve benefício menor entre 50 e 69%, não mudou nada entre 30 e 49%, e abaixo de 30% chegou a aumentar o risco.

Há ainda um resultado recente que reforça isso. Em 2025 saiu a análise parcial de um estudo que sorteou 429 pessoas com estreitamento de 50% ou mais e risco baixo a intermediário entre duas condutas: tratamento clínico bem feito sozinho, ou tratamento clínico mais procedimento. Em dois anos não houve diferença entre os dois grupos. É um resultado parcial, com poucos eventos, e os próprios autores aguardam os dados de cinco anos. Mas aponta para algo que eu já observo na prática: o tratamento clínico de hoje é muito melhor do que o da época em que essas cirurgias foram estudadas.

O que costumo dizer sobre isso

A reação mais comum quando alguém recebe esse laudo é imaginar que a carótida está prestes a entupir e que vai precisar operar.

Explico que o exame foi útil porque a carótida é um trecho do sistema arterial que conseguimos ver de um jeito relativamente simples. A partir dali dá para estimar o risco de doenças mais graves.

A mesma pessoa, com o mesmo colesterol, passa a ter uma meta mais baixa dependendo do que apareceu no exame. É ajustar o tamanho do tratamento ao tamanho do problema.

Fraqueza de um lado do corpo, boca torta, dificuldade para falar ou entender, perda de visão de um olho, dor forte no peito agora, falta de ar intensa ou desmaio pedem atendimento imediato. Procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192. Vale mesmo que o sintoma já tenha passado.

Referências

  1. Albricker ACL, Freire CMV, Santos SN, Alcantara ML, Cantisano AL, et al. Atualização da Recomendação para Avaliação da Doença das Artérias Carótidas e Vertebrais pela Ultrassonografia Vascular: DIC, CBR e SBACV – 2023. Arq Bras Cardiol. 2023;120(10):e20230695. doi:10.36660/abc.20230695
  2. Bushnell C, Kernan WN, Sharrief AZ, Chaturvedi S, Cole JW, et al. 2024 Guideline for the Primary Prevention of Stroke: A Guideline From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke. 2024;55(12):e344-e424. doi:10.1161/STR.0000000000000475
  3. Donners SJA, van Velzen TJ, Cheng SF, Gregson J, Hazewinkel AD, et al. Optimised medical therapy alone versus optimised medical therapy plus revascularisation for asymptomatic or low-to-intermediate risk symptomatic carotid stenosis (ECST-2): 2-year interim results of a multicentre randomised trial. Lancet Neurol. 2025;24(5):389-399. doi:10.1016/S1474-4422(25)00107-3
  4. Flaherty ML, Kissela B, Khoury JC, Alwell K, Moomaw CJ, et al. Carotid artery stenosis as a cause of stroke. Neuroepidemiology. 2013;40(1):36-41. doi:10.1159/000341410
  5. Henning RJ, Hoh BL. The diagnosis and treatment of asymptomatic and symptomatic patients with carotid artery stenosis. Curr Probl Cardiol. 2025;50(6):102992. doi:10.1016/j.cpcardiol.2025.102992
  6. Rached FH, Miname MH, Rocha VZ, Zimerman A, Cesena FHY, et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250640. doi:10.36660/abc.20250640
  7. Rerkasem A, Orrapin S, Howard DP, Rerkasem K. Carotid endarterectomy for symptomatic carotid stenosis. Cochrane Database Syst Rev. 2020;9(9):CD001081. doi:10.1002/14651858.CD001081.pub4
  8. Rothwell PM, Eliasziw M, Gutnikov SA, Fox AJ, Taylor DW, et al. Analysis of pooled data from the randomised controlled trials of endarterectomy for symptomatic carotid stenosis. Lancet. 2003;361(9352):107-116. doi:10.1016/S0140-6736(03)12228-3
  9. Song P, Fang Z, Wang H, Cai Y, Rahimi K, et al. Global and regional prevalence, burden, and risk factors for carotid atherosclerosis: a systematic review, meta-analysis, and modelling study. Lancet Glob Health. 2020;8(5):e721-e729. doi:10.1016/S2214-109X(20)30117-0

Este texto tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso precisa de avaliação individual.

Matheus Marques Franca

Médico · CRM-DF 17096
Especialista em Cardiologia, RQE 13949
Especialista em Clínica Médica, RQE 13950

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